Cotas
Raciais, Igualdade ou Prejuízo Educacional?
A seguir vamos entender o que é o sistema de cotas para o ensino
superior, a lei que o assegura e principalmente a questão racial inserida nesse
sistema. Tendo como base o regulamento proposto por essa lei em razão da
diminuição das diferenças sociais e aumento da igualdade, seremos capazes de
relacionar e estudar as consequências da mesma nas relações raciais que
permeiam a sociedade. Relacionaremos também a justificativa para a lei com o
pensamento de alguns teóricos do século XIX e XX e a repercussão da lei em todas
as camadas da sociedade brasileira, esta que possui grande diversidade étnica e
social.
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O que é a lei de cotas?
“A Lei nº 12.711/2012 (Lei das Cotas), sancionada em agosto deste ano,
garante a reserva de 50% das matrículas por curso e turno nas 59 universidades
federais e 38 institutos federais de educação, ciência e tecnologia a alunos
oriundos integralmente do ensino médio público, em cursos regulares ou da
educação de jovens e adultos. Os demais 50% das vagas permanecem para ampla
concorrência”. (Na seção de perguntas frequentes do portal do
MEC - http://portal.mec.gov.br/cotas/perguntas-frequentes.html).
Dentro do sistema de cotas temos algumas subdivisões, as quais serão
mostradas a seguir:
As vagas reservadas às cotas (50% do total de
vagas da instituição) serão subdivididas — metade para estudantes de escolas
públicas com renda familiar bruta igual ou inferior a um salário mínimo e meio
per capita e metade para estudantes de escolas públicas com renda familiar
superior a um salário mínimo e meio. Em ambos os casos, também será levado em
conta percentual mínimo correspondente ao da soma de pretos, pardos e indígenas
no estado, de acordo com o último censo demográfico do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE).
Figura 1 – Sistema de Cotas e suas subdivisões
*A lei nº 12.711/2012 completa poderá
ser encontrada pelo seguinte link (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12711.htm).
A justificativa para a lei é dada pelas
diferenças na qualidade de ensino dos setores público e privado, como diz a
Deputada Nice Lobão sobre a rede pública de ensino fundamental e médio: “Os
professores fingem que ensinam e os alunos fazem de conta que aprendem”. Além
disso, temos como principal justificativa para implementação das cotas raciais,
para negros, pardos e índios, o passado. Já que o país tem um forte histórico
de exploração, abuso e exclusão dessas “raças”.
Figura 2 – Disparidades na distribuição dos estudantes
no ensino superior, numa sociedade em que 51% da população é negra, a diferença
nessa distribuição é bastante grande.
A partir disso são abertas certas questões polêmicas acerca do tema, com
os que
apoiam a medida das cotas e os que se opõem. A grande questão é saber se esse sistema é válido para a justiça e igualdade ou se por outro lado, acaba incentivando as diferenças “raciais”.
apoiam a medida das cotas e os que se opõem. A grande questão é saber se esse sistema é válido para a justiça e igualdade ou se por outro lado, acaba incentivando as diferenças “raciais”.
Entre os setores sociais cuja opinião é contrária ao sistema de cotas
raciais, estão principalmente alunos e pessoas ligadas à rede privada de
ensino, maioria branca. A principal crítica ao sistema de cotas, sobretudo a racial,
é a baseada na meritocracia. Para essas pessoas existe o pensamento de que
essas regras são injustas porque diminuem a qualidade acadêmica e a produção
científica ao permitir que alunos com notas menores sejam admitidos em
detrimento dos alunos com notas maiores.
Outra forte crítica ao sistema é a dita impossibilidade de distinguir
negros e brancos em uma sociedade miscigenada. Já que o sistema de cotas
raciais funciona por autodeclaração (isto é, cada pessoa declara sua própria
“raça”), há o argumento de que muitas pessoas se aproveitam da falta de constitucionalização
do programa para obter vagas mais fáceis em universidades públicas.
• A seguir, veja a
opinião contrária ao sistema de cotas raciais de Rachel Sheherazade (Jornalista
do Sistema Brasileiro de Televisão - SBT):
“Há um princípio que não podemos ignorar: Neste país, todo cidadão é
igual perante à lei, digno das mesmas oportunidades, seja branco, negro ou
índio. Há um fato histórico que não podemos negar, o brasileiro não tem uma única
cor ou ‘raça’ porque é mestiço. O sistema de cotas não é uma reparação, é uma
enganação para compensar a deficiência crônica que existe no ensino fundamental
e médio, que impede alunos de escolas públicas de ingressar pela porta da
frente do Ensino Superior. Este país tem sim, dívidas históricas com negros,
com índios, com nordestinos, com gays, mas se formos dividir o Brasil em cotas,
em guetos, não seremos uma nação, mas um retalho de um país”.
Já entre os à favor do sistema racial de cotas temos, como já citado
acima, a justificativa compensatória pelo histórico desigual e exploratório do
país e a justificativa igualitária, que acaba se baseando nas consequências
desiguais geradas por esse histórico.
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Opinião à
favor do sistema de cotas raciais de Angela
Randolpho Paiva (Professora do Departamento de Sociologia e Política da PUC-RJ)
“Não é que a ação afirmativa vá
resolver o problema da educação, para fazer isso seria preciso investir na
qualidade das escolas públicas. No entanto, a política tem o poder de reduzir
as desigualdades no campo... Ser a favor da ação afirmativa não significa ser
contra a melhoria do ensino básico. Muito pelo contrário, eu espero que um dia
a ação afirmativa não seja mais necessária. Mas do jeito que o ensino público
fundamental e médio das escolas estaduais está, o único jeito é, através dessa
política, trazer alunos dessas escolas para que eles também tenham uma
oportunidade”.
A tirinha ao lado mostra a relação racial que
permitiu aos brancos a “subida” na pirâmide social, valendo-se da exploração de
pessoas de outra etnia para isso, nos EUA. No Brasil não foi diferente, o fator
histórico exploratório, principalmente de negros, viabilizou o estabelecimento
dos brancos como camada principal privilegiada e aumentou a desigualdade social
no país. O que a tirinha mostra é exatamente a exploração citada acima, no fim,
quando o homem negro pede ajuda ao branco, ele diz: “Claro que não, isso seria
racismo reverso. Olha, se eu subi aqui sozinho, por que você não pode?”. Isso
ilustra bem o porquê de uma das justificativas a favor do sistema de cotas
raciais (se os brancos se valeram da exploração para subir, por que os negros,
numa sociedade que visa a igualdade, não poderiam ter uma ajuda para subir
também?).
Os argumentos utilizados por ambos os lados são válidos. Não é possível
negar a questão da meritocracia e a diminuição da qualidade acadêmica em
detrimento de uma relação futura mais igualitária, já que alunos com notas mais
altas acabam não entrando na Universidade devido à obrigatoriedade de vagas
para cotistas. Da mesma forma, não é possível negar a desigualdade histórica
racial e as consequências da mesma na sociedade atual, além do nível de ensino
de escolas públicas e particulares ser ainda quase sempre bastante diferente em
termos de qualidade, apesar da diminuição exponencial dessa diferença ao longo
dos últimos anos. O que se pretende dizer é que as diferenças são claras e as oportunidades
e contextos sociais vividos por cada pessoa são diferentes. Desta forma o
sistema cotas raciais pode ser pensado, sobretudo, como uma maneira de
estabelecer a igualdade social e assegurar uma “competição” mais justa.
A História é definitivamente peça importante na atual distribuição
social, pode-se pensar que tudo se tornou igualitário nas relações raciais
desde a Abolição da Escravidão em 1888, porém o pensamento ainda tinha tom
racista e o poder já estava consolidado com a elite branca.
Intelectuais da época discutiam sobre o progresso do país e as relações
raciais eram assunto fortíssimo para que pudessem criar a chamada unidade
nacional, obviamente baseada nos costumes e modelos tipicamente europeus.
Pensava-se ainda na inferioridade da “raça negra”, o fardo dos mestiços e para
a sociedade. A colonização europeia era fortemente apoiada, assim como a
eugenia para o branqueamento da população.
Índios, negros,
mulatos e mestiços formavam a grande massa popular, vista pelos intelectuais de
pensamento racista do fim do século XIX e início do XX, como a “barbárie” da
sociedade brasileira. Veja a seguir o pensamento de Raimundo Nina Rodrigues,
com caráter evolucionista, sobre as relações raciais entre os “superiores”
(brancos) e “inferiores” (negros, mestiços, índios, etc):
“O desenvolvimento e a cultura mental permitem seguramente às raças
superiores apreciarem e julgarem as fases por que vai passando a consciência do
direito e do dever nas raças inferiores, e lhes permitem mesmo traçar a marcha
que o desenvolvimento dessa consciência seguiu no seu aperfeiçoamento gradual”.
Ou ainda o ideal de
José Veríssimo sobre os mestiços de brancos e índios no Pará, a solução para
eles seria:
“Esmagá-las sob a pressão de uma
enorme imigração, de uma raça vigorosa que nessa luta pela existência de que
fala Darwin as aniquile, assimilando-as”. Mais uma vez o pensamento caracterizado pelo processo de branqueamento
populacional.
Desta forma, não é difícil entender o embasamento das cotas raciais.
Mesmo numa sociedade “igualitária”, havia e ainda há a marginalização de
pessoas de certas etnias, estereótipos criados no passado, inclusive como forma
de controle dessas pessoas, são utilizados até os dias de hoje para assegurar
as disparidades sociais. Muitos até justificam o sistema de cotas raciais como
uma “compensação por todo o mal causado no passado”, certamente uma compensação
deste tipo não faz sentido, a marginalização ainda acontece atualmente, o sábio
para compensar o passado sofrido é garantir que não aconteça no futuro.
Portanto, a educação é indispensável.
O sistema de cotas raciais é certamente uma ferramenta válida para
assegurar a igualdade social no campo educacional, porém é inútil se não for
utilizado em conjunto com melhoras no sistema de educação pública. O sistema é
útil para garantir que no futuro as “diferenças raciais” não sejam tão grandes
como no passado e a distribuição social seja equilibrada. Mas o sistema de
cotas para o ensino universitário, principalmente a racial e a de alunos
oriundos do sistema público de ensino não é e não pode ser uma ferramenta
vigente por muito tempo já que o abuso desse sistema incitaria a perpetuação
das diferenças que a mesma tenta acabar.
(*) – A palavra “raça” foi utilizada
de forma ERRADA algumas vezes durante este artigo. Humanos não se dividem em
raça por diferenças fenotípicas, como a cor da pele. Estas são apenas
características singulares de cada ser humano, como encontradas em outras
espécies. A palavra foi assim utilizada para melhor compreensão do que foi
proposto, já que a palavra está fortemente arraigada na sociedade e a própria
lei de utiliza da mesma para assegurar o que propõe.
Referências:
http://portal.mec.gov.br/cotas/perguntas-frequentes.html
http://vestibular.brasilescola.com/cotas/lei-das-cotas.htm
http://www.ufpa.br/nupe/artigo9.htm
http://direitoestadosociedade.jur.puc-rio.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=245&sid=23
http://www.upf.br/comarte/?p=2783
Figura 1 : http://vestibular.brasilescola.com/cotas/lei-das-cotas.htm
Figura 2: http://everydayfeminism.com/2014/10/history-of-black-white-relations/
Alunos: Arthur Santos (2), Arthur Zampirolli (3), Danilo Rangel (13), Guilherme Moraes (20) e Gustavo Cardoso (21).
Alunos: Arthur Santos (2), Arthur Zampirolli (3), Danilo Rangel (13), Guilherme Moraes (20) e Gustavo Cardoso (21).


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