A questão das terras quilombolas
Ainda não se sabe ao
certo o número de comunidades quilombolas existentes no país.
O autor Sílvio Vieira de Andrade afirma que “de acordo com o Ministério
da Cultura, as comunidades mapeadas chegam a 724. As identificadas pela
Fundação Cultural Palmares chegam a 1200. São estes os estados brasileiros com
maior quantidade de comunidades: Bahia (mais ou menos 33%), Maranhão (23%),
Minas Gerais (9%), Pará (5%) e São Paulo (4%)”. Ou seja, de 1200 conhecidas,
apenas 724 comunidades quilombolas são intituladas.
De acordo com outro levantamento realizado por
Ciga (2005), existem mais de 2.200 comunidades quilombolas, das quais a maior
parte se concentra na região Nordeste do país.
• Como se caracterizam essas comunidades quilombolas?
Os quilombos que
permanecerem ativos após a abolição da escravidão deram origem às comunidades
atuais, os quilombos remanescentes. Até hoje, os habitantes das terras mantêm a
religião, os costumes, a tradição e os sistema de organização social próprio.
• Há algum artigo ou decreto, previsto em Lei, para a regulamentação dos
quilombos?
Sim. O Decreto n° 4887,
de novembro de 2003, regulamenta o procedimento de identificação,
reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras de que trata o
Art. 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.
Art. 68. Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando
suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado
emitir-lhes os títulos respectivos.
• E por que pouquíssimas terras tiveram
devido reconhecimento?
O secretário de
Promoção da Igualdade Racial do Distrito Federal, Viridiano Custódio, explica
que a principal razão para a demora de alguns processos são as disputas
envolvendo terras: “Disputa política, de território. Alguns setores,
principalmente do meio agrário, são contra essa legalização porque os
territórios, muitas vezes, ficam dentro ou perto de alguma terra que está em
litígio”, destacou. “Esse é um processo que acaba emperrando o trâmite”.
• E por que a titulação é necessária?
Sem a titulação, são
muitos os riscos que a comunidade pode vir a sofrer. Uma das principais é a
ação de grileiros que, ao descobrirem que a terra não é regular, invadem-na e
tomam dos quilombos. Estes, por não terem título, não poderão provar a posse,
perdendo suas terras. Por conseguinte, essas disputas desencadeiam em
expulsões, violência no campo e contra as famílias.
A questão racial
Os quilombolas ainda
sofrem discriminação. Seja por sua cor da pele, religião e/ou cultura ou todos
esses motivos. De acordo com a
pesquisa das Características Étnico-Raciais da População, feita pelo IBGE, 63,7%
dos entrevistados, disseram que a cor ou raça influencia na vida,
principalmente no trabalho. Muitos ainda têm a ideia de que estes são
inferiores e pobres.
Esse preconceito tem raízes vindas de toda a exploração e
ideia de inferioridade negra por parte dos europeus. Acreditava-se que o tão
sonhado progresso da nação estava muito longe por conta de nossa sociedade não
ser homogênea, fazendo desse o principal motivo para a busca da unidade étnica.
Tal visão foi reforçada por teóricos do século XIX, que se
utilizavam do determinismo biológico e “provavam cientificamente” a
superioridade branca, possuindo, naquela época, argumento para a legitimação da
colonização, escravidão e genocídio.
Dentre os que tinham essa visão, podemos citar Nina Rodrigues,
antropólogo brasileiro, psiquiatra e médico legista. Ele dizia que a mistura
entre raças gerou seres humanos desequilibrados e que esses fatores poderiam
indicar propensão à criminalidade, doenças tropicais e degenerescência.
Em um de seus trabalhos, “As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil” publicado em 1894, Nina
defendia a diferenciação na implementação das leis penais de acordo com as
raças, afirmando que os negros, os mestiços e os índios não poderiam responder
por seus atos, tratando a questão pelo lado evolucionista.
Além de Nina Rodrigues, Sylvio Romero e Euclides da Cunha
compartilhavam dessa ideia. Para eles, a situação poderia ser controlada com o
processo de branqueamento da sociedade, tratando a “inferioridade” como algo
momentâneo que seria solucionado ao passo que a população se tornasse cada vez
mais homogênea. Ou seja, quando todos se assemelhassem ao padrão europeu.
Outros estudiosos da época passaram a ver não só pela questão
racial, mas também cultural. Gilberto Freyre critica essa visão biológica
acerca das diferenças, mostrando que os negros contribuíram para a formação da
cultura, incrementando-a. Daí surgiu a ideia de democracia racial.
Até nos dias de hoje,
diante da perspectiva de uma grande parte da sociedade, as ideias e
justificativas para o preconceito se assemelham às da época. Muitos veem os
quilombolas como marginais e menosprezam sua cultura, costumes e modo de viver.
Os quilombos, hoje, não são mais caracterizados por isolamento ou fuga, mas sim
pela resistência de um povo ligado intrinsecamente pela sua história de
resistência social, cultural e territorial, que busca sua autonomia.
BIBLIOGRAFIA
Alunos: Kenia Braga, Carlos Felipe, Ramon Ribeiro e Bárbara Teixeira.


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